Essa postagem tem uma abordagem um pouco diferente. Propomos uma mentalidade mais questionadora sobre o que está ocorrendo com o meio ambiente durante essa pandemia do COVID-19. Esperamos que gostem. Sejam bem-vindos.

Ano passado soltamos algumas postagens relacionadas ao tema de meio ambiente, natureza, proteção ambiental e alimentação. Neste 2020, é inegável que estamos vivendo uma mudança, promovida pelo nosso antigo sistema de consumo, de viver o mundo, de se relacionar com outros e com o meio em que vivemos.

Creio ser importante pararmos de tentar colocar a culpa em uma pessoa, uma nação ou em algo externo, mas sim, entender que a mudança já está em curso e que precisamos nos adaptar ou ficaremos deslocados quando essa mudança for concluída. Nos episódios do podcast do Intolerâncias Internacionais, buscamos debater sobre temas atuais ligados à nossa realidade. Nosso intuito é trazer o debate sobre esses temas, e um ponto muito importante é a respeito do meio e não de nós como pessoas.

Afinal, o que está ocorrendo com o meio nesta pandemia?

Diversos sites, governos e pessoas tem divulgado diversas mudanças drásticas observadas na natureza durante este período que estamos vivendo. Redução nos níveis de poluição, reaparecimento da vida animal em diversos locais do mundo.

Canal de Veneza

Segundo a antiga líder da Agência dos Estados Unidos da América de Proteção Ambiental do Governo Obama, Gina McCarthy: “Essa não é a maneira como gostaríamos que as coisas ocorressem, muito pelo contrário. Isso é só um desastre que aponta os desafios subjacentes que enfrentamos. Não é algo pelo qual celebramos”.

Leões dormindo na estrada na África do Sul que era usada em safáris.

Mas fato é que as águas de Veneza estão agora claras, leões estão transitando por estradas que eram frequentemente usadas para fazerem tours no safaris da África do Sul e ursos e coiotes circulam pelas acomodações vazias no Parque Nacional Yosemite na Califória, EUA. Indianos veem o Himalaia pela primeira vez devido a redução dos níveis de poluição. Junto disso, o preço dos barris de petróleo despencou por um tempo, voos foram cancelados, o trânsito de pessoas foi restringido.

McCarthy disse para uma reportagem no The Guardian: “Você agora pensa se as pessoas querem voltar a como era antes. A pandemia mostrou que as pessoas mudarão seus comportamentos se for pela saúde de suas famílias. Essa era a mensagem climática perdida, que é um problema humano, não um problema planetário. Nós mostramos que você pode ter um ambiente estável e o seu trabalho também”.

Toda a questão relativa ao meio ambiente e ao estilo de vida está agora em debate pelo mundo. O número de emissões de gás carbônico (CO2) e dióxido de nitrogênio (NO2) durante a quarentena, lockdown e isolamento reduziu drasticamente, e já começou a apresentar benefícios para o meio ambiente. Segundo o estudo de Cohen et al. (2017), anualmente 4.6 milhões de pessoas morrem no mundo devido a péssima qualidade do ar. A poluição atmosférica é um problema global e seus efeitos podem ser vistos através de nações desenvolvidas, como a Europa onde 193 mil pessoas morreram devido a poluição do ar em 2013.

Mudanças no nível de dióxido de nitrogênio na China antes e depois da pandemia, imagens da NASA.

Antes dessa pandemia o debate entre os cientistas, ambientalistas que o mundo do jeito como estava não aguentaria 50 anos, devido ao modo consumo humano. Estávamos consumindo mais do que a terra proporcionava, não se engane, a causa pela qual o COVID-19 foi expandido, espalhado e possibilitado de ocorrer não foi pelo modo de alimentação das pessoas de Wuhan, China. E sim, pelo imenso desequilíbrio ambiental proporcionado pelo ser humano, em todas as nações do mundo. Em 2019, foi visto que a crise climática estava vindo com tudo e para ficar, o que surpreendeu a ciência que achava que teria ainda mais uma ou duas décadas para chegar a esse ponto. E agora vemos a pandemia.

Agora com a redução da atividade humana nas ruas, redução do número dos carros e veículos, já vemos mudanças. Na Itália, golfinhos foram filmados nadando no porto de Cagliari, capital da ilha Sardenha. Os canais de Veneza estavam mais limpos com uma semana de quarentena, o que não ocorria a mais de 60 anos.

O professor de engenharia da UFJF, Cezar Henrique Barra afirmou que “o ser humano tem sido o maior problema do planeta; ele terá essa única oportunidade de mudar seu status para algo mais humano”.

Segundo a Doutora em Ecologia Ana Lúcia Tourinho, há uma correlação entre o desmatamento e a destruição dos habitats florestais com o surgimento das doenças. Inclusive se sabe que as doenças causadas por mosquito (como dengue, malária, zika vírus, leishmaniose) têm uma relação intrínseca com o desmatamento. Quando desmata mais, surgem os vírus. A fauna silvestre fica exposta e esses micro-organismos se aproximam do humano”.

Só para relembrarmos os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU, tradução aqui.

Segundo a ecologista esses organismos agem como uma resistência, que achatam a curva populacional, e no caso do coronavírus, restringe a locomoção das pessoas. Forçando-as a parar. Quase como um sistema imunológico da própria terra, que ao lado de seres vivos predadores como é o ser humano, se tornam responsáveis por evitar um crescimento exponencial dos animais, sendo eles humanos ou não.

É visto a necessidade de debatermos nossos hábitos de vida e de consumo que eram recorrentes antes do surgimento dessa pandemia. Se todos acordarmos em mudar o sistema como o mundo se organizava antes podemos conseguir um futuro para as futuras gerações e para nós mesmos, nos quais não teremos mais centenas de milhares de mortes por causa da péssima qualidade do ar.

Nos vemos no próximo post!

REFERÊNCIAS:

MUHAMMAD, Sulaman; LONG, Xingle; SALMAN, Muhammad. COVID-19 pandemic and environmental pollution: A blessing in disguise? Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0048969720323378&gt;.

SOMMER, Lauren. How The Coronavirus Pandemic Is Affecting Environment. Disponível em: <https://www.npr.org/2020/05/05/851100410/how-the-coronavirus-pandemic-is-affecting-environment&gt;.

A.J. Cohen et al. Estimates and 25-year trends of the global burden of disease attributable to ambient air pollution: an analysis of data from the Global Burden of Diseases Study 2015. Lancet (2017), 10.1016/S0140-6736(17)30505-6Google Scholar.

Escrito por

Katlen Carvalho | Intolerâncias Internacionais

Internacionalista apaixonada por segurança internacional, inteligência e cenários estratégicos que não come carne, glúten ou lactose.