Pandemia 2020: Arte na quarentena

E o post de hoje, é mais um da coletânea de isolamento social/quarentena devido a pandemia do COVID-19. Hoje, iremos conversar sobre a importância das manifestações artísticas e culturais em épocas de restrições sociais. Iremos voltar para a Revolução Industrial, e depois sobre a ditadura militar brasileira, movimento Tropicália e a contracultura brasileira.

Teatro Grego

É fato de que a arte é um dos reflexos da sociedade. Os artistas dos mais diversos gêneros artísticos possuem um papel fundamental em toda sociedade que é entreter o público, das mais diversas formas e para os mais diversos fins. Voltando lá nas antigas temos o teatro Grego com aquelas tragédias épicas, podemos até falar da técnica usada pelos governantes do Pão e Circo que ouvimos cada dia mais. Fato é que a arte não funciona somente como um auxílio político como também uma crítica social.

Poster filme Tempos Modernos de Charles Chaplin

Charles Chaplin é um ótimo exemplo, Tempos Modernos é a perfeita crítica social mostrada através do tipo de comédia que Chaplin sabia e adorava fazer, buscando entrar na cabeça das pessoas de forma leve, fazendo com que a ideia de que mecanizar tudo não era algo realmente bom. Ou, vamos vir para um contexto de Brasil, o movimento Tropicalia durante a ditadura militar (1964-1985).

Antes de falarmos sobre o movimento, é importante lembrar a época prévia do regime militar, era contexto Jucelino Kubitchek, 50 anos em 5, modernidade, juventude ansiosa para mudar a sociedade. Porém, a liberdade individual acaba sendo cerceada pela Ditadura (Golpe) Militar (1964-1985):

juventude percebia com o recrudescer da ditadura,
principalmente depois do AI-5 (decretado em 13 de dezembro
de 1968), que estava vivendo um momento decisivo que exigia
uma reação rápida. Havia três reações para o jovem da época:
a luta armada, o “desbunde da contracultura”, ou, então,
a conformidade com o sistema, tornando-se, no linguajar
contracultural, um “careta” (BARROS, 2004, p. 33).

Durante o período da restrição das liberdades individuais, os ativistas culturais e os artistas tiveram um papel de suma importância, encenavam peças em portas de fábricas, favelas, sindicatos. Publicavam poesias a preços baixos, tinham colunas dentro de jornais, buscando a popularização da cultura, enfatizando a diferença cultural brasileira da norte americana.

Nos anos 1960, o Brasil via uma carência de informações sobre o underground, que não possuía visibilidade da grande imprensa, as informações eram por ouvido, discos, conversas, produções independentes. Portanto, esse movimento hippie provindo dos EUA chegou mal visto no Brasil, visto como algo enlatado, tornando a contra cultura uma moda burguesa dos EUA, pelas ideias desagregadoras da família e do sistema. Os ativistas culturais, buscavam diferenciar os movimentos culturais dos EUA e do Brasil , destacando que haviam diferenças significativas.

A diferença principal da contracultura era o grau diferente de desenvolvimento, de contradições sociais, politicas e econômicas. A integração do Brasil foi feita através de um “processo violento ao sistema capitalista internacional” (BARROS, 2004, p. 36).

O movimento Tropicalista, portanto surge nessa época de contracultura, de luta por mudar o status quo, de reivindicar a própria manifestação cultural brasileira. Ele deflagra um processo dentro da arte brasileira, com jeitos novos e revolucionários, emergido no momento onde a repressão e o obscurantismo se instalavam com o regime militar a partir de 1964.

Link para a matéria aqui.

Para Bueno (1978, p. 28), o movimento atuou sem ufanismo, sem demagogia política, incorporou o tom de paródia e bem humorado, crítico e dessacralizador de Oswald de Andrade. Confronta a música popular brasileira (MPB) com a música popular internacional. Criando e conduzindo à criações poéticas revolucionárias, letras e arranjos de música, linguagens inovadoras nas Artes Plásticas, Literatura, Cinema, Teatro. Estas criações eram observadas nos palcos e nos meios de comunicação de massa, que denotavam atitudes e comportamentos mais próximos da agitação internacional do que qualquer outro movimento dentro do Brasil.

Segundo o site do movimento Tropicalia ou Tropicalismo, ele foi um movimento de ruptura que muda o mundo da música entre 1967 e 1968. Os participantes formaram um coletivo, seus destaques eram Caetano Veloso, Gilberto Gil, participações também de Gal Costa e Tom Zé. Além deles, o maestro Rogério Duprat, Nara Leão, José Carlos Capinan , Torquato Neto e Rogério Duarte. Era um movimento irreverente, que transforma a forma como a música era vista, política, moral, comportamento. Fazendo com que a cultura hippie fosse assimilada, era um movimento libertário por excelência, dura mais ou menos um ano, mas é reprimido pelo Governo Militar. O final do movimento começa com a prisão de Gil e Caetano, no último mês de 1968.

Foi um movimento de reinvenção da própria cultura, sintonizando dados nacionais e estrangeiros disponíveis para criar algo moderno brasileiro, que na época era pouco compreendido, pois muitos acreditavam que era um movimento erudito e elitista. E, ao mesmo tempo em que era algo aberto, tinha que passar desapercebido como um movimento cultural diferente para o governo, que reprimia todo o tipo de manifestação que não fosse à seu favor.

O que nossos ascendentes vivenciaram durante os anos 1960 e 1970, se relaciona diretamente com o que vivemos agora. O contexto hoje é uma pandemia mundial, de um vírus que ainda não possui vacina e nem uma cura específica. Estamos sendo privados de sair de casa para a segurança coletiva, temos que viver isolados das pessoas que amamos e que queremos bem para que todos possamos passar bem por essa situação. E é nesse contexto de quarentena/isolamento social, que a produção artística é necessária.

Pois, é com o entretenimento que conseguimos suportar o isolamento, é nesse momento também que vemos uma ruptura na sociedade para a inserção de uma nova realidade. Não, não é fácil, contudo é o que temos. Nosso dever é passar isolados e sermos nós as mudanças ativas no mundo que está por vir. Vamos ter que nos reinventar assim como a contracultura mostrou que não era só de Bossa Nova e pop internacional que o Brasil vivia, e sim que tinha muita música, arte, cultura nacional boa e original para acompanharmos.

A certeza que hoje tenho e afirmo a todos vocês é que tudo vai mudar. Essa mudança já estava prevista, portanto agora não é hora de ficar preso no velho, no que já foi. Agora é hora de mudar, de testar, de reinventar o mundo que vamos encontrar quando essa pandemia tiver fim.

Até o próximo post!

Tradução: Seja a mudança que quer ver no mundo – Gandhi

Referências do texto:

BARROS, Patrícia Marcondes de. “Tropicália”: A face da nascente contracultura no Brasil nos anos de Chumbo. Revista de Literatura, História e Memória. Vol. 10. N. 15. Unioeste: Cascavel, 2014.

RODRIGUES, Walace. Tropicalismo e cinema na construção de uma identidade cultural nacional. Cadernos de Pesquisa. Vol. 21. N. 2. 2008.

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