Devido aos últimos acontecidos envolvendo a pandemia generalizada causada pelo COVID-19/Sars-CoV-2, pensei em trazer uma série de matérias a respeito do tema. Começaremos com o debate sobre bioguerra e bioterrorismo, aqui vamos discutir o que são, sua utilização e a relação com o que estamos vivendo. Além deste material escrito teremos o lançamento de um podcast no Spotify, sendo o primeiro episódio relacionado com o tema. Então, nos siga no Instagram para acompanhar as novidades.

Em 2001, em Nova Iorc, EUA, houve um episódio de disseminação de Antraz pelo sistema postal norte americano, onde houveram 11 casos confirmados de Antraz pulmonar e 5 destes evoluíram e morreram.

Recompensa oferecida pelo Governo dos EUA em 2001 para descobrir os mandantes dos ataques utilizando Antraz.

Depois deste episódio o CDC – Centro de Doenças Contagiosas (Center for Disease Control and Prevention), cunha o termo bioterrorismo como a:

“disseminação deliberada de bactérias, vírus ou outros micro-organismos utilizados para causar doença ou morte em populações, animais ou plantas”.

Para o Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães – CPqAM/Fiocruz, bioterrorismo é:

“Uso intencional de micro-organismos ou toxinas derivadas de organismos vivos, vírus ou príons causando morte ou doença em pessoas, animais ou plantas. Pode ocorrer por meio de fômites, vetores, animais infectados, produtos de diversas origens ou doenças emergentes”.

Outros autores adicionam mais um elemento essencial para o bioterrorismo, que é o terror. Citam que a arma biológica do bioterrorismo é mais uma história de pânico do que de fatos. Além disso, o ‘terror’ adiciona o elemento surpresa e que esse tipo de ataque pode levar de minutos até dias para ser descoberto, gerando e se utilizando da dimensão psicológica que é uma das ferramentas mais importantes para terroristas.

Já a Guerra Biológica segundo o Manual de Aspectos Médicos das Operações de Defesa Química, Biológica e Nuclear da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é o “emprego de agentes biológicos com a finalidade de causar doenças e mortes em pessoas ou animais e danificar plantas ou materiais”.

A utilização de agentes infecciosos como armas não é recente. Considerando que toda história tem um fundo de realidade, segundo Marr e Malloy (1996), das dez pragas do Egito, infligidas por Deus para castigar o faraó, a quinta e a sexta teriam sido antraz.

Em 1763, o exército britânico na América, durante a guerra com os franceses, mandou cobertores e lenços que haviam sido utilizados num hospital para pacientes com varíola para os índios de Delaware, que eram aliados dos franceses (CHRISTOPHER et al, 1997).

Já na segunda metade do século XX, durante a Guerra Fria, os EUA e a então URSS, se valendo da experiência acumulada dos japoneses (Manchúria) e alemães (durante a II Guerra Mundial), implementaram projetos para o desenvolvimento de armas biológicas, assim como Canadá e Reino Unido. Claro que, em 1972 o Tratado sobre armas biológicas e tóxicas foi assinado por vários países. Mas mesmo com esse Tratado Internacional, pelo menos dez países mantiveram e expandiram seus programas de desenvolvimento de armas biológicas (LANCET, 2001; OSTEHOLM, 2001).

E uma das principais razões pela qual as armas biológicas não são utilizadas em larga escala é simples. Primeiro, o controle é extremamente difícil e o potencial destruidor é desconhecido. Portanto, a possibilidade de sua utilização sair de controle e de o atacado se utilizar da mesma arma como retaliação sempre foi impedimento suficiente para impedir que este tipo de arma fosse utilizado em larga escala.

Portanto, o bioterrorismo é uma realidade segundo Osterholm, os ataques mais graves possivelmente não teriam acontecido pela dificuldade ou incapacidade de disseminar de maneira eficiente os agentes infecciosos, sem dúvida o aspecto mais complexo no desenvolvimento das armas biológicas.

O CASO DA VARÍOLA:

Já estabelecemos que em tese qualquer agente biológico pode ser usado como arma. O vírus B. anthracis, o da Varíola, é um dos clássicos das armas biológicas. Esse vírus possivelmente é o mais preocupante dos agentes potencialmente utilizáveis como arma biológica (JAHRLING et al, 2000). No caso específico da varíola, o seu desaparecimento foi forçado devido a uma campanha a nível mundial de vacinação que promoveu a erradicação da doença pela ação humana deliberada (BARQUET; DOMINGO, 1997).

Em 1980, a varíola foi considerada erradicada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu para que todos os estoques da doença fossem destruídos até 2002, porém, devido ao episódio do Antraz nos EUA em 2001, a OMS adiou a destruição destes estoques para mais estudos.

A varíola possui uma letalidade de cerca de 30%, a letalidade da H1N1 é de 0,2%. É uma doença altamente contagiosa, se o vírus fosse veiculado em qualquer aeroporto internacional, não haveria somente um número elevado de casos, mas também uma dispersão por praticamente o mundo todo principalmente se considerarmos que o tempo de incubação da varíola é de 7 a 17 dias, e geralmente 12 a 14 (Anonymous, 1999; Barquet & Domingo, 1997; Jahrling et al., 2000; Silva, 2000).

O controle da doença é feito através da vacinação. O Brasil é um dos países que produzem a vacina da varíola, na tetra viral – prevenindo varíola, caxumba, rubéola e sarampo, fornecida de forma gratuita à população pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o custo da produção das vacinas no Brasil é baixo e o sistema de prevenção e de vacinação na maior parte dos casos é efetivo.

Portanto, é preciso que todos se conscientizem e prestem atenção nas recomendações do Ministério da Saúde e dos Governos Estaduais, respeitando a quarentena e o isolamento social. Pois, mesmo que os casos do COVID-19/SARS-CoV2 tenham uma letalidade mais baixa do que da varíola, o vírus é extremamente contagioso e nos casos mais graves leva a caso de pneumonia, e outras complicações respiratórias. Lembre-se: o vírus não vai atacar somente as pessoas em grupo de risco, ele afeta a todos.

Até a próxima! E não se esqueça de lavar bem as mãos e usar álcool gel.

Referências:

Morse, SS. Biological and chemical terrorism. Technology in Society. 2003, 25:557–563.

Radosavljevic V, Jakovljevic B. Bioterrorism – Types of epidemics, new epidemiological paradigm and leves of prevention. Public Health. 2007, 121:549-557.

Almeida, ME. Guerra e desenvolvimento biológico: o caso da biotecnologia e da genômica na segunda metade do século XX. Rev. Bras. Epidemiol. 2006, 9(3):264-282.

North Atlantic Treaty Organization (NATO). Field Manual (FM) 8-9 – Nato Handbook on the Medical Aspects of NBC Defensive Operations. Washington, 1996.

CARDOSO, Dora Rambauske. Bioterrorismo: dados de uma historia recente de riscos e incertezas. Cien Saude Colet [periódico na internet] (2009/Jun). [Citado em 23/03/2020]. Está disponível em: http://www.cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/bioterrorismo-dados-de-uma-historia-recente-de-riscos-e-incertezas/3791?id=3791.

SILVA, Luiz Jacintho. Guerra biológica, bioterrorismo e saúde pública. Caderno de Saúde Pública: Rio de Janeiro, nov-dez. 2001.

MARR, J. S. & MALLOY, C. D., 1996. An epidemiologic analysis of the ten plagues of Egypt. Caduceus, 12:7-24.

CHRISTOPHER, G. W.; CIESLAK, T. J.; PAVLIN, J. A. & EITZEN Jr., E. M., 1997. Biological warfare. A historical perspective. JAMA, 278:412-417.

OSTERHOLM, M. T., 2001 Bioterrorism: A real modern threat. In: Emerging Infections 5 (W. M. Scheld, W. A. Craig & J. M. Hughes, ed.), pp. 213-222, Washington, DC: ASM Press.

TOROK, T. J.; TAUXE, R. V.; WISE, R. P.; LIVENGOOD, J. R.; SOKOLOW, R.; MAUVAIS, S.; BIRKNESS, K. A.; SKEELS, M. R.; HORAN, J. M. & FOSTER, L. R., 1997. A large community outbreak of salmonellosis caused by intentional contamination of restaurant salad bars. JAMA, 278:389-395.

JAHRLING, P. B.; ZAUCHA, G. M. & HUGGINS, J. W., 2000. Countermeasures to the reemergence of smallpox virus as an agent of bioterrorism. In: Emerging Infections 4 (W. M. Scheld, W. A. Craig & J. M. Hughes, ed.), pp. 213-222, Washington, DC: ASM Press.

BARQUET, N. & DOMINGO, P., 1997. Smallpox: The triumph over the most terrible of the ministers of death. Annals of Internal Medicine, 127:635-642.

ANONYMOUS, 1999. Is smallpox history? Lancet, 353: 1539.

Escrito por

Katlen Carvalho | Intolerâncias Internacionais

Internacionalista apaixonada por segurança internacional, inteligência e cenários estratégicos que não come carne, glúten ou lactose.