Diplomacia Cultural no Governo Vargas

Segundo as autoras Leila Bijos e a Verônica Arruda, a diplomacia cultural emerge como uma das mais completas ferramentas capazes de consolidar a posição brasileira em lugar destacado no cenário internacional, por permitir um intercâmbio entre os ganhos de cunho político, econômico e de cooperação. O chamado poder brando se utiliza da persuasão e da atração para conseguir os objetivos, e o instrumento utilizado para tal empreendimento seria a atração cultural e a atração por valores políticos e ideológicos, destacando-se uma cultura e uma ideologia atraentes, servindo de marco para que os outros países o acompanhem em suas ações. O soft power é mais utilizado por aqueles países que não possuem vantagens na área militar ou econômica, e portanto se utilizam de meios alternativos para exercer influência. Porém, soft power não é o único mecanismo da diplomacia cultural, mas é um dos mais utilizados.

Segundo Edward Carr (1981), na década de 1930 foi-se percebido que o controle sobre a opinião da população reside numa das fontes do poder. Para o autor, o poder político na esfera internacional pode ser analisado em três categorias, a do poder militar, do econômico e o poder sobre a opinião. Essas naturezas do poder interagem entre si, e para que um Estado se torne uma potência é necessário que trabalhe essas formas de poder. Os poderios econômicos e militares servem para assegurar o prestígio de um Estado no cenário internacional e, segundo Carr, a guerra em potencial é, por si só, um fator determinante na política internacional, enquanto o econômico se relaciona diretamente a capacidade de aquisição do poder militar. Enquanto isso, o poder sobre a opinião consiste na capacidade de um país persuadir e influenciar a percepção da população, tanto nacional quanto internacionalmente. Em1981, Carr explica que com a emergência da democracia, as massas ganham importância para as decisões políticas, então, a política contemporânea depende da opinião do cidadão comum. É interesse do Estado difundir opinões e conter outras opiniões contrarias aos seus interesses, para controlar e ajustar as percepções e ideias dos indivíduos, para garantir seu apoio e legitimidade.

É a partir dessa perspectiva que pode-se analisar o Governo Vargas, vale ressaltar também que durante a Guerra Fria, o Brasil mudou sua postura algumas vezes, mas foi somente com o final do conflito e os efeitos da globalização que levam o país a mudar sua interação com o cenário internacional. Antes, o país tinha uma postura basicamente isolacionista, a partir deste ponto buscar conquistar um papel maior em suas relações exteriores. É este contexto de mudança que este artigo irá analisar, a partir da entrada de Vargas em 1930, como seu governo utilizou de um discurso de divulgação do Brasil, através do futebol, arte, música, dança.

Segundo o autor, durante a Primeira República (1889-1930), não houveram políticas sistemáticas em relação a difusão da cultura brasileira no exterior, somente iniciativas esparsas e sem interligação entre si. Porém, em 1924 devido a uma iniciativa da França e sob patrocínio da Sociedade das Nações, surge o Instituto Internacional de Cooperação Intelectual (IICI), o Brasil participa do instituto a partir de 1925, e com sua colaboração cria uma Comissão Brasileira de Cooperação Intelectual, que acabou sendo colocada sobre a tutela do Itamaraty e que teve seu delegado Elysée Montarroyos, para ser o intermediário entre o Brasil e o IICI (1924-46). Este delegado viu a importância da divulgação, da diplomacia cultural brasileira, expondo que a questão da propaganda era um problema de ordem intelectual. Foi então, em 1932, que propôs ao MRE instituir um serviço que teria como principal visão promover uma propaganda inteligente e oportuna do brasil no exterior. Em 1934, o Serviço de expansão Intelectual deveria fazer discretamente, a propaganda dos valores literários do Brasil no estrangeiro, tirando-se, o mais que possível, o caráter ostentatório de ‘propaganda oficial’ dos trabalhos. Construção de uma imagem positiva do país e, para isso, o controle das redes.

A partir dessa reorganização do MRE, passa-se a começar a mudar a perspectiva brasileira no exterior, tanto favorecendo encontros entre intelectuais brasileiros e estrangeiros para que fosse estabelecida uma solidariedade e conveniência sobre as quais fossem possíveis sustentar a propaganda nacional. Assim como difundir obras brasileiras e publicar monografias com temas considerados “nacionais”. Então, em 1937 oficialmente se institui o Serviço de Cooperação Intelectual, ligado ao IICI, o Ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, muda o serviço pois segundo ele ele era “insuficiente para atender essa necessidade imperiosa de mostrar a verdadeira imagem do país”(SUPPO, 2003). Propondo, em 1936, um moderno e mais prático programa cultural do Brasil no exterior. Objetivo era substituir as “trocas platônicas” em curso, por uma intensa e grande campanha de propaganda e de cooperação seguindo modelos de alguns países da Europa.

Então, houve-se uma proposta de revisão dos livros de história e geografia dos principais países do mundo para que uma imagem mais exata e completa do Brasil fosse introduzida. Foram criadas também bolsas para estudantes brasileiros que quisessem ir para for a do país, assim como a concessão a subvenções as revistas estrangeiras para que pudessem compartilhar trabalhos sobre o Brasil e também instituições que organizem congressos científicos internacionais. Capanema também exibe um projeto para que se subvencionasse, por questões geopolíticas, o Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura Científica e Literária (1922), Instituto Luso-brasileiro de Alta Cultura e o Instituto Ítalo-brasileiro de Alta Cultura em (1934). Basicamente com a finalidade de ajudar nas relações culturais com outros países além de, difundir a cultura brasileira e os conhecimentos úteis sobre Brasil nos principais centros estrangeiros.

A diplomacia cultural brasileira se consolida em 1937, dispersa entre muitos ministérios, confusa quanto as atribuições de cada um dos organismos dela encarregados e submissa as inimizades incentivadas pela composição heterogênea do governo Vargas. O governo foi ambíguo em diversos momentos, tanto por posicionamentos de Vargas como os seus ministros. Pôde-se evocar que haviam dificuldades de comunicação entre a Divisão de Cooperação Intelectual, que dependia do importante nome da política externa brasileira, Oswaldo Aranha, que tendia mais a tendencias americanistas e o Departamento de Imprensa e Propaganda, dirigido por Lourival Fontes, que tinha uma simpatia por regimes fascistas. Mas mesmo com conflitos, o DCI e o DIP se relacionavam no quesito. Da diplomacia cultural brasileira, uma política híbrida em que não era claro o que era relativo a cooperação internacional e o que era assemelhado a propaganda cultural, em suma, não se sabia ao certo o que era de acordo a um modelo autoritário e o que era seguindo uma estratégia a la francesa. No ano de 1938, a Divisão de Cooperação Intelectual foi tida com o objetivo de atender ao expediente do MRE na parte referente às relações culturais com outros países, difusão da cultura brasileira e a divulgada de conhecimentos úteis sobre nosso país nos principais centros estrangeiros.

Então, desde 1927, Montarroyos demonstrou grande consciência dos benefícios que a diplomacia cultural traria para o Brasil. Após enfatizar de que forma o IICI representava um excelente vetor para essa concepção, destaca:

“Fornecidas, com efeito, sob a égide daquela instituição, cujo caráter internacional constitui, aos olhos do público, uma garantia de imparcialidade, as informações sobre o Brasil ficarão ao abrigo da desconfiança com que são frequentemente recebidas as que apenas trazem a marca da propaganda nacional. Outra consideração em favor do dito projeto é a de que, judiciosamente conduzida, a propaganda intelectual de um país abre-lhe novos caminhos para sua propaganda econômica” (AHI, 1935)

Segundo Montarroyos, Capanema de Ildefonso Falcão, para que o país obtivesse o prestígio moral era necessário combater o imaginário que caracterizava o Brasil como uma “terra de selvagens”, destacada mais por sua natureza exuberante que pelas religações de seu povo. Todos não se reduziam somente a Europa no quesito de propagação cultural e sim a prioridade seria dada ao continente latino americano, reforçando a unidade frente as grandes transformações mundiais. Então, por mais que a Europa fosse o primeiro alvo da diplomacia cultural brasileira por meio do IICI, a América Latina ocupa um lugar maior no dispositivo posto em pratica pelo Itamaraty nos anos 1930. O Brasil, com isso, tinha a pretenção de evitar a formação de um bloco hispano-americano que lhe fosse hostil, e assustar sua liderança sobre o subcontinente. Sempre se apresentava sendo o meio termo entre a Europa e a América, se colocando na posição de líder entre seus pares, por meio do IICI.

Nesse mesmo período ocorria a Política da Boa Vizinhança, por parte do governo de Roosevelt dos Estados Unidos, o Brasil responde de maneira positiva à essa política e ao “imperialismo sedutor” que a acompanhava (TOTA, 2000). Vargas via as oportunidades ofertadas por essa nova configuração no domínio cultural. Por exemplo: envia músicos, cantores e café à Exposição Internacional de Nova York, no ano de 1939; se apresenta como ícone do pan-americanismo. Sempre aproveitando para reforçar a chamada “equidistância pragmática”, que caracterizava sua política externa. Essa expressão foi criada por Gerson Moura, remetendo ao esforço brasileiro ao se portar como neutro, frente as questões exercidas pelos países do eixo capitalista e pelas democracias ao longo dos anos 1930.

O Brasil, assim, acaba sendo um protagonista do Instituto Interamericano de Cooperação Intelectual, criado pela conferência interamericana em 1928, rival direto do IICI. Em relação aos alvos da diplomacia cultural brasileira, a Ásia e a África não foram adicionados à lista dos países. Já Portugal, em 1942, teve um lugar reservado na política diplomática cultural, sob a égide do DIP e com cooperação com a Secretaria Nacional de Informática e Cultura Popular Portuguesa, a Seção de Intercâmbios Luso-brasileira, restrita à domínios artísticos, literários e turísticos. Numa tentativa para difundir o português falado no Brasil fora do país.

Getúlio Vargas e Oswaldo Aranha

Porém, havia uma dicotomia entre conteúdos valorizados pela Política externa e os elementos da cultura popular privilegiados pelo Estado Novo no cenário nacional, como o carnaval, futebol samba e a feijoada (WILLIAMS, 2001). É nesse período entre guerras que a diplomacia cultural brasileira se introduz e define seus principais parâmetros, muitos destes duram após 1945. Há três principais: a desordem institucional relacionada ao peso de personalidades marcantes; o expressivo pragmatismo na compreensão das matérias e da escolha dos destinatários e a dissociação entre o que se valorizava no doméstico e o que era exibido da cultura brasileira no exterior.

Portanto, é possível ver que a política diplomática Brasileira a partir do Governo Vargas, muda significativamente, pois o presidente e seu Governo tinham como um de seus objetivos inserir o Brasil como uma potência, e deixar para trás a visão anterior de um país selvagem, não civilizado, sem cultura. Foi nesse contexto que nasce o carnaval como algo tradicional da cultura, assim como o futebol e a música. Para o mundo artístico, os anos 1930 trouxeram diversos avanços, a gravação passa de ser mecânica para elétrica, permitindo o registro fonográfico de vozes de curta extensão. E o aparecimento do primeiro veículo de comunicação de massa, o rádio, estimulado pelo governo de Getúlio Vargas, tudo em seu projeto de promoção da cultura brasileira.

Na música, surgem nomes como Carmem Miranda, Francisco Alves, Orlando Silva, Araci de Almeida, além disso em 1930 há a criação da Orquestra Colbaz, lançamento de discos pela gravadora Columbia e a popularização do choro paulista, e seus músicos, regida por Gaó (piano), Atílio Grani (flauta), Zé Carioca (bandolim), Hudson Gaia (violão), Jonas Aragão (saxofone-alto), Ernesto Trepiccioni (violino) e José Rielli (acordeon). No futebol, em 1931 há a primeira transmissão de rádio numa partida ao vivo, em 1933 torna-se um esporte profissional no Rio de Janeiro e em São Paulo, nascendo a primeira liga de futebol profissional brasileira, a Federação Brasileira de Futebol, não reconhecida oficialmente pela Confederação Brasileira de Desportos (hoje a CBF). A inauguração do estádio do Pacaembu em 1940, as normas para a prática esportiva brasileira e a criação do Conselho Nacional de Desportos (CND), tendo uma função como a CBF hoje.

Devido ao ativo esforço do Governo Vargas e da continuidade por um tempo desse plano de política diplomática cultural, que o Brasil consegue quase eliminar o estigma de país selvagem, substituindo por uma imagem do país como país do futebol, samba, carnaval, mulheres, que perdura até atualmente.

REFERÊNCIAS

AHI, Rio de Janeiro: 276/2/4, Carta de Montarroyos a Otavio Mangabeira, 5 set. 1927.

DUMOND, Juliette; FLÉCHET, Anaïs. “Pelo que é nosso!”: a siplomacia cultural brasileira no século XX. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 34, nº 67, p. 203-221, 2014.

SUPPO, Hugo Rogelio. Gilberto Freyre e a imagem do Brasil no Mundo: cena internacional. Ano 5, n.2, p.43, 2003.

TOTA, Antônio Preto. O Imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na época da Segunda Guerra Mundial. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

WILLIAMS, Daryle. Culture Wars in Brazil: The First Vargas Regime, 1930-1945. Duham: Duke University Press, 2001.

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