As Relações Internacionais na série The 100

Diversas séries retratam o cenário de uma III Guerra Mundial, como seria, o que restaria. Um exemplo é a série The 100, que começa 97 anos após a 3ª guerra mundial, guerra nuclear que torna a Terra um planeta, a princípio, inabitável para seres humanos devido a altos níveis de radiação.  Os únicos sobreviventes foram 400 habitantes de 12 estações espaciais que estavam em órbita durante o acontecimento – Brasil, Estados Unidos da América, Rússia, China, Reino Unido, Canadá, França, Índia, Japão, Uganda e Venezuela.

Essas estações se juntam em uma só chamada de Arca, criam uma espécie de Governo Mundial com o comando através de um Conselho onde todas as decisões eram tomadas – punições, mudanças, ações, feriados, comemorações -, haviam diversas estações responsáveis por diversas funções.

  • Estação Governamental e Científica, anel primário da Arca, centro de comando de operações e setores chaves;
  • Estação Médica, dentro da estação governamental que tratava questões de saúde dos cidadãos;
  • Estação de Monitoramento Terrestre, tinha a função principal de monitorar as condições da Terra afim de analisar possíveis formas de vida e de sobrevivência no planeta;
  • Estação Agrícola, onde eram cultivados alimentos, ervas medicinais;
  • Estação Alpha;
  • Estação Arrow, antes chamada de Shenzhen;
  • Estação Fabril, responsável pela fabricação de itens necessários, manutenção de materiais reciclados ou quebrados;
  • Estação Hidro, responsável por questões de água;
  • Estação Mecânica, função de baía de manutenção, cápsulas de fuga;
  • Estação de Prisão, chamada de Sky Box, onde ficavam prisioneiros menores de idade pois os de maior idade eram mandados para o espaço para morrer;
  • Estação Tesla, responsável pela energia elétrica da Arca.

O enredo da série começa com uma superpopulação e uma falta de recursos na Arca devido à falta de oxigênio e o espaço disponível para a população. Por causa da necessidade de uma solução viável para a sobrevivência humana, os comandantes mandam 100 jovens prisioneiros para a Terra para testar a situação no planeta e descobrir se haveria possibilidade de retorno para o local. O plano era seguir em direção a uma antiga instalação militar, Mount Weather, porém o pouso foi distante do local, a partir disto os jovens vão criando uma comunidade experimental. Porém, o planeta não estava morto, inclusive possuía uma organização própria.

A radiação proveniente da guerra causa diversas mutações nos sobreviventes que se tornam mais resistentes a radiação, estes povos são chamados de Grounders que se organizam em 12 tribos. Além disso há também os Reapers que são Grounders canibais e os Mountain Men, humanos que se salvaram das bombas em bunkers, porém não suportam radiações então não saem para a terra, e por fim os Skykru, aqueles vindos do espaço, inicialmente os 100 jovens.  As 12 tribos são: Trikru, Azgeda – nação do gelo, Floukru, Sankru ou Sangedakru, Yujleda, Ouskejonkru, Delfikru, Trishanakru, Podakru, Igranronakru, Boundalankru.

A série gira em torno das relações entre a Skykru e os Grounders, de forma que os Skykru se tornassem o 13° clã e pudesse se juntar a coalizão (Kongeda), onde haveria paz e respeito como um clã, assim como uma voz para poder opinar. Os Grounders possuem diversos códigos de conduta, um deles é sobre não usar armas de fogo que não são produzidas por eles, se um Grounder usar arma é punido, também possuem o lema de: Sangue se paga com sangue. Cada clã possuí um líder e controla diversas aldeias, cada qual com seu representante, todos os líderes seguem o comandante da coalizão (Heda).

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Lexa, a Heda da Coalizão dos 13 clãs.

A escolha dos comandantes é realizada a partir da “chama”, um chip de inteligência artificial (IA) que é alojado no início da coluna vertebral do escolhido, para ser apto a receber a “chama” é necessário que o indivíduo possua um tipo de sangue adapto para suportar a IA, este sangue é chamado de Nightblood – sangue negro, que metaboliza a radiação emitida pela chama e pela radiação do planeta por esta razão o sangue possui uma coloração preta.  Desde cedo as crianças com sangue negro são ensinadas a serem guerreiras assim como aprender a falar inglês, sem distinção de sexo, inclusive a primeira Heda era mulher assim como diversas outras na linhagem das Hedas. Outra questão é a respeito de mutações físicas, quando uma criança nasce com uma mutação são expulsas e abandonadas, esta tradição acredita que desta forma se apaga a mancha da mutação da linhagem.

Luta pela liderança da Coalizão entre Lexa (Heda) e Roan o príncipe de Azgeda.

Os guerreiros possuem armaduras, cada clã possui uma armadura própria, alguns usam pinturas no rosto/corpo. Lutam com diversas armas: espadas, punhais, arcos, lanças e diversos guerreiros são especializados em combate corpo a corpo. A questão das armas de fogo e destruição em massa, acredita-se que se um Grounder pega uma arma os Mountain Man irão eliminá-los. Então, se usam de elementos naturais para sua defesa. Os Grounders possuem um dialeto próprio chamado de Trigedasleng, apenas guerreiros falam inglês (Gonasleng). As punições dentro da sociedade Grounder: a pena capital é feita sob a forma de morte por mil cortes, em que todos os membros do clã fazem um corte de cada vez no indivíduo e o deixam morrer lentamente. Para crimes mais flagrantes, são usados fogo e mutilação. Todos do clã ferem o indivíduo e se no final não estiver morto a comandante o mata com uma espada.

O que a série mostra é como as relações são frágeis, o quão fácil é entrar em conflito e o quão difícil é entrar em um acordo para a paz entre os povos, considerando que sempre algum povo irá se opor a comandante e irá querer o poder. Também expõe a crueldade do ser humano, que tortura, aniquila, mata com a justificativa de proteger seu povo não levando em conta os outros povos, trata sobre a Segurança Humana em situações de crise. Os Skykru possuem dificuldades no que tange o pensamento coletivo já que desde que descem para a Terra uns matam os outros, assim como dificultam cada vez mais a tentativa de entrada a coalizão dos Grounders matando eles ou por qualquer rixa que exista. O que dificulta ainda mais uma possível relação amistosa entre os clãs.

A série retrata uma possibilidade de Darwinismo Social, em que o ser humano se adapta a condições adversas e luta por sua sobrevivência, se torna um ser da guerra, do conflito, não preocupado com seus semelhantes e pouco reflexivo com sua relação com o coletivo quando a questão é sua sobrevivência. A série The 100 é uma boa releitura da teoria do Darwinismo Social em uma sociedade afetada pela guerra e em busca por uma situação estável, por uma adaptação, um meio amistoso ou não de sobrevivência, pois na série é sempre uma questão de sobrevivência. É intrigante que mesmo em uma releitura de um cenário futurístico o ser humano é exibido como um ser que se mantém fiel as suas raízes pré-históricas, em que a lei era “que viva o mais forte”, ou seja, o mais adaptável as adversidades propostas pelo ambiente, lutando por sua sobrevivência mesmo que para que isto ocorra diversos outros tenham que morrer.

Há um monólogo sobre dilemas sobre a natureza humana de uma peça chamada La vida es sueño de Pedro Calderón de La Barca de 1635:

“Que reprimamos esta fera condição, esta fúria e ambição, para que um dia sonhemos. Aprendamos, pois vivemos em um mundo tão singular, que o viver é só sonhar; e ensina-me a vida mãe que na sua vida o homem sonha o que é até acordar. Sonha o rei que é rei e segue com este engano mandando, ordenando e governando: e esse aplauso, que recebe fingido, no vento escreve, e em cinzas a dura morte o torna, que triste sorte. O rico sonha em sua riqueza que mais zelos lhe oferece; sonha o pobre que padece na sua miséria e pobreza; sonha o que adquire a grandeza, sonha o que luta e pretende, sonha o que agrave e ofende, e no mundo, em conclusão, todos sonham o que são e, porém, ninguém o entende. ”

No monólogo poético de Segismundo, preso em uma cela, não vendo nada e vendo tudo, mostrando a natureza do homem, que para se manter no poder prende seu próprio filho, irmão deixando-o para morrer, desde que isso signifique manter seu status quo. E assim retrata a série, em diversas ocasiões por causa de uma pessoa um acordo era quebrado, pois salvar uma pessoa e condenar o grupo era mais interessante, ou assassinar a sangue frio uma aldeia inteira por acreditar que um deles matou o “crush”. Contudo, a série é uma releitura interessante da teoria adaptada de Darwin em uma realidade alternativa, pois além de discutir o comportamento dos seres humanos, também fala sobre as expectativas a respeito das tecnologias e motivações para conflitos, cooperações, acordos, segurança humana, diplomacia e evolução biológica, social e política mesmo com grupos que não tem muito em comum, talvez somente um certo grau de aparência física.

Charles Robert Darwin (1809-1882) foi um naturalista inglês, autor do livro “A Origem das Espécies”. Formulou a teoria da evolução das espécies, anteviu os mecanismos genéticos e fundou a biologia moderna. É considerado o pai da “Teoria da Evolução das Espécies”, que explica qual as formas de vida evoluem lenta, mas continuamente através do tempo e que no decorrer desse processo de evolução uma seleção natural ocorre – sobrevive o mais apto, as condições, as mudanças, ao novo status debate, portanto, sobre a questão da evolução a partir de um ancestral comum, por uma seleção natural.

REFERÊNCIAS:

THAY. A força das mulheres em The 100. Disponível em: <http://valkirias.com.br/forca-das-mulheres-em-the-100/>. Acesso em: 03 jun. 2018.

LEMELLA, Leandro. The 100. Disponível em: <http://apaixonadosporseries.com.br/series/the-100/&gt;. Acesso em: 03 jun. 2018.

BOLSANELLO, Maria Augusta. Darwinismo social, eugenia e racismo “científico”. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/er/n12/n12a14.pdf&gt; Acesso em: 03 jun. 2018.

FERNANDEZ, Guilherme A. As relações da teoria de Darwin e o evolucionismo social. Disponível em: < https://anais.cienciassociais.ufg.br/up/253/o/Guilherme_Alvarenga_Fernandez.pdf&gt; Acesso em: 03 jun. 2018.

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